Cruciforme e Apocalíptico: as duas faces do evangelho apostólico

Cruciforme e Apocalíptico: as duas faces do evangelho apostólico

A expressão “Evangelho do Reino” é usada de forma muito comum por cristãos, sobretudo quando diz respeito a movimentos ligados à evangelização e ao cumprimento da grande comissão. Porém,  qual seria o significado dessa expressão descrita por Jesus em Mateus 24:14? Qual seria o conteúdo dessa mensagem? Afinal, por causa dessa mensagem, o próprio Messias, após ter ressuscitado, passou 40 dias em uma espécie de “intensivo” com os seus discípulos, ensinando “as coisas referentes ao Reino de Deus”  (At. 1:3).

Com isso, à medida que reparamos nas pregações apostólicas (At. 2; At. 4:8-12; At. 7; At. 17:16-34), percebemos que o evangelho do Reino é como uma moeda de duas faces. De um lado, a verdade cruciforme de que o filho de Deus – sendo Deus – encarnou, se tornou homem, e morreu na cruz pelo perdão de nossos pecados (Hb. 9:28). Essa era a mensagem da qual os apóstolos foram testemunhas, avistando o cumprimento das profecias que faziam menção da vinda de um servo sofredor (Is. 53), que se entregaria em favor da humanidade, a fim de possibilitar a reversão das consequências do pecado – sendo a morte a principal delas – e a restauração de todas as coisas. À essa face da “moeda” damos o nome de “cruciforme”.

Por essa razão, todos os dias, os discípulos de Jesus, os quais deram início  à Igreja no primeiro século, trilhavam o caminho apertado (Mt. 7:13-14), seguindo os passos de Seu Mestre. Consideravam, pois, incomparáveis os sofrimentos do momento presente quando levada em consideração a glória que haveria de ser revelada – quando da ressurreição dos corpos e o recebimento de um corpo incorruptível (Rm. 8:18). Dessa forma, não consideravam essa vida como preciosa, mas entregavam-se, na vida e na morte, ao testemunho do Evangelho e ao anúncio da Esperança do Deus de Israel, para que todos viessem à fé – primeiro, os judeus e, depois, os gentios. 

Porque não me envergonho do evangelho, pois é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu e também do grego [gentio].

Romanos 1:16

Porém, por outro lado, temos a compreensão de que esse mesmo Deus-homem, que trilhou um caminho de sofrimento antes da glorificação, foi escolhido pelo Pai para, em um dia já determinado, julgar vivos e mortos (At. 10.42; 2 Tm. 4:1) e atribuir tanto recompensas como condenação. Sim, ele veio como um servo sofredor, morreu em nosso lugar para perdão de nossos pecados, nos dando a possibilidade de recebermos o dom do novo nascimento através do Espírito Santo. No entanto, ele retornará para, de Jerusalém, ser o regente de toda a Terra (Sl. 2) , julgando e condenando, em Sua vinda, o pecado e todos aqueles que se entregaram à iniquidade (Is.63) e salvará, de Sua ira, todos aqueles que creram no seu sacrifício vicário. Aqui temos, literalmente, “o outro lado da moeda”: a face apocalíptica do evangelho.

assim também Cristo, oferecendo-se uma só vez para levar os pecados de muitos, aparecerá uma segunda vez, não por causa do pecado, mas para a salvação dos que esperam por ele.

Hebreus 9:28

Nesse sentido, compreendemos que a salvação, no entendimento dos apóstolos e dos discípulos judeus no primeiro século, estava muito mais atrelada a um evento futuro do que à uma consequência presente. Pois, para eles, o perdão de pecados (presente) – que nos é dado mediante o arrependimento, por meio do convencimento do Espírito Santo e a fé no Messias – nos possibilitaria a salvação da ira vindoura, no Dia do Senhor. Como o apóstolo Paulo, dedicado a pôr fundamentos onde ainda não havia (Rm. 15), completamente entregue ao cumprimento da grande comissão e à edificação da Igreja, escreve àqueles que se reuniam em Tessalônica:

[Estais] esperando do céu o seu Filho, a quem ele ressuscitou dentre os mortos, Jesus, que nos livra da ira vindoura.

1 Tessalonicenses 1:10

Então, para aqueles que aguardavam com expectativa o aparecimento do Senhor Jesus nos ares e o Dia de sua salvação, a fé possuía uma outra compreensão um tanto diferente da que temos hoje na Igreja ocidental. Se levarmos em consideração o que é descrito pelo autor de Hebreus no capítulo 11 deste livro, veremos que o que havia em comum em todos os heróis da fé era a esperança pela cidade cujo Deus é o arquiteto e construtor – a Nova Jerusalém. Fé, essencialmente, significava escatologia [1]. Assim o autor introduz o capítulo: “A fé é a garantia do que se espera e a prova do que não se vê” (Hb.11:1). Trata-se da garantia do retorno de Jesus e a prova de um Reino que virá.  Logo, quando lemos em Romanos 1:17 que “o justo viverá pela fé”,  precisamos ter em vista que esta é uma citação do Antigo Testamento. Aqui, Paulo, além de estar citando o profeta Habacuque (Hc. 2:4), também está fazendo referência ao contexto o qual essa frase, anteriormente, foi aplicada – a saber, o Dia do Senhor e Seu julgamento iminente. Fé sem esperança é engano, e está muito distante do padrão apostólico.

Necessitamos de Esperança. A expectativa pelo retorno de nosso Senhor Jesus, aquele a quem a nossa alma, desesperadamente, anseia, precisa ser o condutor de nossa jornada. É impossível “fazermos” Igreja, discipularmos ou cumprirmos a grande comissão sem esperança. Essa expectativa era o que gerava toda movimentação na Igreja do primeiro século – e, apesar de ter passado muito tempo e termos sofrido inúmeras transformações, isso não mudou. Precisamos pregar a palavra, em tempo e fora de tempo, como instruiu o apóstolo dos gentios ao seu filho na fé, Timóteo, tendo em vista o Dia do Senhor e Sua manifestação.

Eu te exorto diante de Deus e de Cristo Jesus, que há de julgar vivos e mortos, pela sua vinda e pelo seu reino, prega a palavra, insiste a tempo e fora de tempo, aconselha, repreende e exorta com toda paciência e ensino.

2 Timóteo 4:1-2

Assim como é impossível separar as faces de uma moeda – e, sem uma das faces, ela não é completa – é impossível pregar, ensinar e viver o verdadeiro evangelho com somente um desses aspectos. Por isso, é necessário que compreendamos essas verdades para que, então, anunciemos a necessidade de arrependimento antes da chegada do Reino, que se dará somente com o retorno de Jesus. A iminência de um julgamento vindouro (Dia do Senhor) e a realidade da condenação eterna precisam causar em nós uma urgência imparável, a fim de que o verdadeiro evangelho do Reino seja proclamado e, então, todos quantos o Senhor desejar sejam salvos.

Somos chamados a, nesta era, vivermos o estilo de vida de submissão proposto por nosso Mestre no sermão do Monte, demonstrando a conduta e os sinais do Reino que virá. Entraremos pela porta estreita, trilhando o caminho apertado, cujo fim é o calvário. E, mesmo que sejamos entregues, dia após dia, como ovelhas ao matadouro, teremos viva em nós a certeza de que nosso corpo corruptível é apenas uma semente (1Co. 15) a qual, um dia, será lançada sobre a terra, mas, da mesma forma que o nosso Senhor, no Seu Dia, seremos ressuscitados e entraremos no Seu Reino de plena paz, justiça e alegria. Portanto, Àquele que veio e – muito em breve – virá: MARANATA!

[1] HARRIGAN, John P. The  obedience of faith, disponível em: clique aqui; acesso em 18/05/2022.

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