As cartas de Grumpy aos seu Aprendiz 2

As cartas de Grumpy aos seu Aprendiz 2

CARTA 2 — ESCAPE DA RAZÃO

(ou como falar muito e pensar pouco)

Meu caro Aprendiz,

Nunca se esqueça disto: razão é sempre um risco.

Argumentar exige causa, fundamento, realidade, e tudo isso pertence ao terreno do Inimigo. Ele criou o raciocínio, Ele gosta disso. Portanto, evite discussões reais. Em vez disso, rotule. Um rótulo encerra uma conversa antes que ela comece. Não permita que o paciente pergunte se algo é verdadeiro; ensine-o a perguntar apenas o que isso me faz sentir? Diante de qualquer ideia desconfortável, basta enquadrá-la: conservadora, liberal, ingênua, ultrapassada, emocional, problemática. Nenhuma dessas palavras exige exame; todas produzem a agradável sensação de lucidez. Assim, o paciente continuará falando — e falando muito — sem jamais tocar o que é.

Pelas suas cartas, pude perceber que seu paciente tem inclinação para argumentar, isso é ótimo. Mas é importante que o mantenha sempre no nível do comentário, nunca da causa. Faça-o reagir, opinar, relacionar tudo com tendências, movimentos, fases e influências. Quanto mais ele souber sobre as coisas, menos saberá as coisas. Faça-o defender ideologias e religião mais do que se importa com pessoas e situações reais. O Inimigo trabalha com realidade; nós trabalhamos com discurso. Se o paciente começar a perguntar “por quê?”, desvie-o imediatamente para, “o que isso diz sobre tal época?” ou “o que isso significa para mim?”. Essas perguntas dão a ilusão de profundidade, mas jamais exigem obediência. Uma mente ocupada em interpretar dificilmente se submeterá ao real.

É preciso que você compreenda algo fundamental: a razão, quando usada honestamente, conduz inevitavelmente ao Inimigo. Portanto, jamais afaste o paciente do pensamento, isso seria um erro grosseiro. Nosso objetivo é mais elegante: impedi-lo de chegar às causas, aos fundamentos e aos começos. Estimule-o a amar frases prontas. Slogans espirituais, máximas inspiradoras, conceitos vagos que soam profundos, mas não significam nada. Nada nos favorece mais do que uma espiritualidade fluentemente verbal e intelectualmente rasa.

O que temos construído ao longo dos anos é um escape da razão. Em outras palavras, queremos desconectar o paciente da realidade, fazendo-o repetir palavras com tom de sabedoria, inteligência e profundidade. Jargões são armas poderosas; o nosso Pai das profundezas aprecia muito esse método. Que o paciente repita ideias, mas jamais investigue suas origens. Uma linguagem emocionalmente agradável, porém desconectada da realidade, cria a ilusão perfeita de maturidade. Ele se sentirá informado, sensível e espiritualmente ativo; tudo isso sem jamais tocar a verdade.

Evite, a todo custo, que ele desenvolva contemplação. O pensamento silencioso é perigosíssimo; absolutamente intolerável – Eu tenho muito a te dizer sobre isso, especialmente em relação à distração abençoada promovida pelos dispositivos móveis e suas redes sociais. Mas, por agora, fuja de perguntas sobre o ser, o bem, a verdade e o sentido final das coisas quase sempre acabam apontando para o Inimigo. Substitua contemplação por opinião. Substitua investigação por reação. Substitua verdade por linguagem aceitável.

Se o paciente começar a desconfiar de que está apenas falando, conduza-o imediatamente para a emoção. Cerque-o de pessoas que repetem as mesmas coisas, que aplaudem os mesmos jargões, que confirmam as mesmas impressões. Evite qualquer contato com vozes dissonantes; isso costuma funcionar muito bem.

Lembre-se: um homem que apenas fala jamais sairá de si.

Sem maiores entusiasmos,
teu mentor,
Grumpy