Beleza, adoração e brasilidade no contexto cristão contemporâneo
A arte não precisa de justificativa
“A arte e a adoração permanecem juntas sobre o terreno comum do não utilitário (não do inútil).” Andy Crouch, For the Beauty of the Church
Qual é a função da arte para o cristão? Em muitos momentos, dentro do nosso contexto evangélico brasileiro, essa questão surge, ainda que de forma tímida e construída por meio de outras perguntas.
A mim, parece que, regado por fortes correntes de dualismo, o contexto cristão brasileiro frequentemente não enxerga a arte como deleite, como adoração, como um lugar onde criatura e Criador encontram comunhão.
A arte, que foi tão bem utilizada ao longo da história da Igreja, a arte que permeia as Escrituras, a arte que habita as entrelinhas da revelação, a arte que se manifesta na própria criação do nosso Senhor e que o torna tão distinto dos falsos deuses, muitas vezes, entre nós, só é considerada válida quando carrega palavras religiosas ou símbolos que nossa consciência aprendeu a classificar como sagrados: o leão, a cruz, o fogo, a pomba do Espírito.
Se uma obra não contém esses elementos, logo se conclui que ela não possui utilidade e, portanto, não é válida. No entanto, a arte não precisa, necessariamente, ter utilidade, assim como a própria adoração. A adoração, em sua essência, não busca ser útil, mas ser verdadeira.
Dessa maneira, ressoando o nosso grande professor Rookmaaker, entendemos que a arte não precisa de justificativa. Nas palavras de Andy Crouch, ela não precisa ser útil. Ela encontra o seu devido lugar em nossas vidas ao promover beleza e comunhão com Deus.
A arte não é neutra
Contudo, não pode nos levar a pensar que tal arte é neutra, nem que nós mesmos conseguimos ser neutros. Nossas ações, nossas músicas, nossos escritos e tudo o que produzimos comunicam a nossa cosmovisão.
Dessa forma, a arte não se torna cristã simplesmente quando carrega elementos religiosos, mas pelo motivo que a originou e por quem a produziu. A arte glorifica a Deus quando nasce de um coração regenerado, moldado pela cosmovisão cristã, iluminado pelo Espírito Santo e formado pelas Escrituras.
Ainda assim, é necessário refletirmos juntos sobre como essas expressões artísticas devem ser utilizadas dentro do nosso contexto litúrgico, no culto, na vida da igreja e em outros ambientes religiosos.
Se, por um lado, é extremamente necessário abraçarmos a nossa brasilidade, algo que o dualismo frequentemente nos rouba, levando-nos, por vezes, a acreditar que há mais poder espiritual em cantar dentro de uma estética que não é nossa – geralmente importada de contextos americanos ou europeus – por outro lado, precisamos discernir até que ponto a extravagância estética e poética serve ao contexto litúrgico e dominical.
Musica no culto
No contexto litúrgico, vale, sim, pensarmos naquilo que mais funciona e qual é a utilidade de determinada música ou expressão artística. Nesse ambiente, é necessário que a arte sirva ao momento da adoração comunitária da maneira mais didática possível, pois visa não apenas o deleite, mas também a formação e o discipulado da comunidade.
Assim, ao que parece, ao longo dos anos, salvo algumas exceções, especialmente falando sobre música, o uso de estruturas harmônicas, rítmicas e melódicas mais simples foi sendo incorporado ao contexto das comunidades locais.
Podemos, obviamente, discutir se a busca por tornar nossas canções mais aplicáveis ao contexto litúrgico as torna artisticamente mais pobres ou não. O que me parece um fato, porém, é que canções biblicamente claras, com refrões simples e harmonias acessíveis funcionam muito bem, considerando que nossas comunidades, em sua grande maioria, não são formadas por músicos profissionais, mas por pessoas comuns reunidas para a glória de Deus.
Outra realidade é que, perdoe minha repetição, nosso dualismo e uma espécie de síndrome de vira-lata frequentemente nos fazem enxergar mais espiritualidade em uma estética estrangeira do que naquilo que é latino e, especificamente, brasileiro.
A guitarra elétrica, para muitos, parece mais espiritual do que o cavaquinho. A bateria com estética pop-rock, mais gloriosa do que a riquíssima variedade rítmica que herdamos da África e das múltiplas fusões culturais presentes no Brasil.
Vestir uma criança como Thor pode parecer fofo, mas vesti-la e ornamentá-la com elementos da nossa cultura indígena, por exemplo, muitas vezes é associado ao pecado ou ao sincretismo religioso.
Essa visão religiosa e dualística, na verdade, empobrece nossa arte como um todo, seja a arte litúrgica voltada aos nossos cultos públicos, seja a arte produzida para deleite, formação cultural e expressão fora do ambiente litúrgico dominical.
Um “Auê”
Essa pobreza tem nos afetado profundamente, a ponto de que, ao escutarmos uma música como “Aue”, do Coletivo Candiero, nos espantemos. Espantamo-nos porque não estamos acostumados com a nossa própria cultura, com os nossos próprios ritmos, com as nossas próprias nuances.
Para mim, é evidente que os compositores, a banda e os cantores não pensaram essa música para um contexto de culto dominical. Também me parece claro que não houve a intenção de explicar todos os aspectos da canção, algo que, aliás, pode ser extremamente positivo dentro da arte. A arte deve nos fazer refletir, interpretar, pensar, sentir…
O problema surge quando, em meio a uma repulsa à nossa própria cultura e a um empobrecimento bíblico, histórico e teológico, começamos a rotular nomes, estilos e temas musicais como sendo do diabo ou não.
Quando a nossa análise deixa de ser bíblica, teológica e filosófica e passa a se tornar acusatória em relação ao indivíduo, para mim, estamos diante de um problema grave.
Meus pitacos:
Diante dessas reflexões, quero deixar aqui meus dois centavos de contribuição para toda a polêmica em torno da canção lançada pelo Coletivo Candieiro:
Primeiro, acredito que a canção e o próprio Coletivo exercem um papel extremamente importante no contexto cristão brasileiro. Vejo neles uma contribuição genuína e necessária para a nossa música e para a nossa reflexão cultural e espiritual. Sem dúvida, propõem uma sonoridade diferente, carregada de poesia e de provocações que confrontam nossos ídolos internos, expõem nossa pobreza cultural e, como resposta, apontam para o evangelho de Cristo. Isso é valioso, necessário e, em muitos sentidos, corajoso.
Segundo,não achei a música pecaminosa ou impura, hahaha. Muito pelo contrário, enxergo beleza, intencionalidade e profundidade na proposta artística. Apenas não a achei cantável em um culto dominical, o que também não acredito ser a intenção dos compositores, e isso, para mim, não diminui em nada o valor da obra.
Terceiro, espero sinceramente que eles continuem produzindo arte e glorificando ao Senhor com seus balanços, ritmos e riquezas culturais. O Candeeiro, para mim, soa como um grito profético em um tempo em que muitas vezes estamos adormecidos e satisfeitos apenas com aquilo que “funciona”. Sou grato pela coragem artística e pela provocação que eles têm trazido.
Precisamos desse tipo de voz que nos chama à reflexão, ao arrependimento e ao resgate da beleza.
No entanto, tenho algumas críticas leves a fazer, não com o intuito de alimentar polêmicas, mas como um irmão em Cristoque, de alguma forma, também serve o corpo de Cristo com harmonias, melodias e poesia cantada.
A primeira delas é que, mesmo que não seja a intenção, em muitos momentos a comunicação presente em podcasts, vídeos e textos pode transmitir uma postura que soa excessivamente categórica, quase como se toda inteligência cultural e teológica estivesse concentrada apenas em determinados círculos, o que, por vezes, pode ser percebido como um tipo de purismo.
A crítica e a reflexão são não apenas saudáveis, mas necessárias, e têm sido bem recebidas por muitos dentro do contexto worship brasileiro.Contudo, quando comunicadas com um tom que pode parecer áspero, o efeito tende a ser o afastamento, não a aproximação. Em vez de pontes, constroem-se muros onde poderia haver comunhão e aprendizado mútuo.
A segunda questão é que concordamos que a arte não é neutra e que todos carregamos uma cosmovisão. Ainda assim, às vezes parece, e não creio ser o único a perceber isso, que, na tentativa de provocar impacto cultural ou marcar posição no debate, existe o risco de que a mensagem se confunda com a performance do próprio discurso (ou, como diríamos de forma mais simples, de se perder no personagem… hahaha). Talvez, por amor ao corpo de Cristo, fosse saudável refletir sobre a linguagem utilizada, considerando as dores e os contextos que envolvem o povo brasileiro e a igreja no Brasil. Faço essa observação com respeito e humildade, como alguém que também está aprendendo e refletindo.
Outra reflexão que me surge é se personagens comuns, como o “Zé” e a “Maria”, citados na própria narrativa da canção, conseguiriam compreender a complexidade da mensagem proposta. A arte pode e deve carregar profundidade e simbolismo, mas, quando se apresenta como crítica cultural e espiritual dirigida ao povo, talvez valha considerar se a comunicação alcança justamente aqueles que deseja provocar e despertar.
Além disso, em um país profundamente polarizado, especialmente em tempos eleitorais, o uso de pautas políticas muito marcadas para defender a legitimidade da arte pode acabar produzindo ainda mais afastamento. Em vez de ampliar o diálogo, corre-se o risco de reforçar divisões e dificultar que pessoas com diferentes sensibilidades se aproximem da reflexão proposta. Minha preocupação não é negar a dimensão pública e social da arte cristã, mas lembrar que, quando a linguagem se torna excessivamente associada a disputas políticas, ela pode ofuscar a beleza e a força transformadora do evangelho que desejamos comunicar.
Ao mesmo tempo, reconheço uma tensão legítima: há sempre o risco de que, ao suavizar demais o tom, perca-se justamente o caráter profético que torna esse tipo de voz tão necessário.
A terceira crítica nasce de uma inquietação que tem surgido de maneira indireta. Em alguns momentos, determinadas comunicações parecem sugerir, ainda que não de forma explícita, que a expressão verdadeiramente brasileira da fé estaria necessariamente ligada a certos elementos rítmicos ou estéticos específicos. Nos últimos dias, por exemplo, tenho visto nas redes sociais muitas pessoas reproduzindo discursos que colocam em oposição a música chamada worship e aquilo que seria uma expressão cultural brasileira autêntica. Evidentemente, nenhum artista pode ser responsabilizado por todas as interpretações do seu público. Ainda assim, percebo que alguns têm encontrado nesse tipo de discurso uma justificativa para acusações duras e, por vezes, divisivas, o que pode acabar enfraquecendo o diálogo e a comunhão dentro do próprio corpo de Cristo.
Então surge a pergunta: canções como “Yeshua” deixam de ser brasileiras o suficiente?
Será que brasilidade precisa ser vestida apenas com aquilo que “eu” considero importante e valioso no Brasil? Brasil que é tão diverso, tão complexo e tão belo. Os muros que criamos com tanta facilidade precisam ser vencidos pelo poder do evangelho de Cristo, o Rei de judeus e gentios. A reunião de oração das irmãs pentecostais, com seus cabelos amarrados e pandeiros retumbantes, é mais brasileira do que as reuniões nas praças dos jovens universitários com suas tatuagens “Revival”? Ou será que ambas, à sua maneira, carregam fragmentos dessa mesma história?
Tenho tido a graciosa oportunidade de viajar ao redor do mundo e contemplar a beleza, e também a pobreza, da igreja brasileira entre as nações. A cada nova versão que ouço de “Quero Conhecer Jesus”, com adições rítmicas africanas ou frases melódicas suavemente transformadas no Oriente Médio, o que vejo são bandeirinhas do Brasil nos comentários. O que vejo é o banquete do grande Rei sendo servido com novas melodias, novos ritmos e novos povos. E o Brasil também está à mesa.
A proposta, portanto, amigos leitores, é que não paremos de fazer arte. A proposta é que não deixemos de expressar a beleza do Criador por meio de nossas mãos pequenas; melodias, quadros, poemas, ritmos e danças. Seja brasileiro, coreano, japonês ou americano, que tudo seja para a glória de Deus. Aos que são brasileiros, sejam brasileiros até o fundo da alma, mas lembrando sempre que ninguém é dono de uma estética santa, nem de uma definição absoluta do que é verdadeiramente brasileiro.
Talvez o caminho para fora desse empobrecimento não esteja em rejeitar a arte estrangeira, nem em abraçar nossa cultura de forma acrítica, mas em redescobrir uma teologia da criação, da encarnação e da redenção que nos permita contemplar toda beleza com discernimento e gratidão. Quando a igreja é profundamente formada pelas Escrituras, enraizada no evangelho e sensível à obra do Espírito, ela se torna capaz de produzir e discernir arte que seja, ao mesmo tempo, fiel e culturalmente honesta, simples o suficiente para servir à adoração comunitária e rica o suficiente para nutrir a imaginação e o afeto do povo de Deus e da cultura ao nosso redor. Assim, libertos do medo e do dualismo, podemos aprender a cantar com a linguagem do nosso povo, celebrar a beleza que Deus espalhou em nossa história e produzir arte que, seja no altar ou fora dele, antecipe a harmonia, a diversidade e a glória da nova criação, onde toda tribo, língua e nação trará suas riquezas culturais diante do Cordeiro.
